A coisa está GRAVES - por Luiz Horta

Jul 18, 2014

O vinho rompeu fronteiras: vinhedos em toda parte, do Oregon a Nova Zelândia, dos Andes até as ilhas vulcânicas gregas (e a China vem aí, com grandes investimentos de Lafite-Rothschild e LVMH). No vasto piscinão vinícola, sem bordas, onde nadamos na atualidade, há poucos valores fixos. Bordeaux ainda é um deles, seu nome permanece solene como um dos símbolos de qualidade e preços altos, embora nem todo Bordeaux seja bom, ou caro. Mas, o nome forte conta para o consumidor, a marca que conduz a mão na prateleira. Os bordeleses são marqueteiros de muito talento. Usam sua imagem bem, alardeando safras notáveis e gerando manchetes.

 

Há uma anedota no mundo do vinho. Quando o ano é muito bom, os bordeleses dizem que foi “a safra do século”. Quando é médio, dizem “muito bom”. E quando é um ano horrível, classificam a safra de “difícil, mas que deu bons vinhos”. Depois do ano 2000 já tivemos umas 3 safras do século, que me lembre. Ultimamente, o clima tem castigado a região e está difícil manter a pose; 2013 sendo considerada uma catástrofe pela crítica que cumpre o calvário dos en primeur.

O ritual é o seguinte, todo início de ano a imprensa especializada voa para Bordeaux, quando os châteaux abrem as portas e mostram os vinhos novos, tirados das barricas, que serão engarrafados só anos mais tarde e chegarão ao mercado no futuro. É um sofrimento inescapável. Bordeaux é gelada na época, chove, o desconforto é total, são dezenas de provas por dia e os vinhos ainda são líquidos extremamente agressivos, recém fermentados, pura acidez e taninos.

Fui duas vezes, terminei com aftas enormes na boca e gastrite. Cadê o glamour? Só ultra conhecedores conseguem imaginar naquelas coisas rudes e intragáveis os vinhos que serão, exercício de futurologia. As degustações em primeira mão (grosseiramente o que traduz en primeur) é também marketing, uma boa avaliação de um crítico repercute no mundo, produz vendas.

Mesmo nos piores anos, a exceção tem sido a região de Graves, onde os tintos minerais e os deliciosos brancos continuam encantando. Bordeaux branco foi considerado um subproduto, mais por preconceito (os Sauternes caríssimos são brancos, só que falo aqui dos brancos secos). Gosto muito deles, têm bom preço e dão muito prazer na hora de beber. 

Como diz o respeitado jornalista Anthony Rose, Graves é uma das poucas regiões (talvez a única) do mundo a levar o nome do solo: graves quer dizer seixo e cascalho.

O jogo que me propus para esta coluna, além de indicar um Graves de qualidade e preço pagável, foi achar as mesmas características em outros lugares. Listo abaixo um “Graves” chileno, dois alentejanos, um da Rioja e um da Península de Setúbal. A gravidade, ou o gravismo deles, é terem mineralidade, frescor e uma untuosidade, quase cremosa na boca, pois vinho envolve tato também, o da língua. Estilo Graves é algo de Sauvignon Blanc e Semillon com austeridade, mas outras uvas conseguem reproduzir o trovão de seda de que são capazes. E a possibilidade de evoluírem na garrafa, ganharem com o tempo. Graves é região e estilo, optei por falar no estilo.

 

Os vinhos que escolhi:

 -Clos Floridene 2007 (Casa Flora): um graves de Graves mesmo, produzido pelo famoso Denis Dubourdieu, com corpo que dá para mastigar e a sensação de lamber um seixo molhado de tão mineral. O tempo de garrafa fez muito bem a ele. Delicioso.

 

-Viña Gravonia 2003 (Vinci): este tesourinho da venerável Lopez de Heredia, o vaticano dos Riojas clássicos, tem uma pegadinha no nome. Quando a empresa começou a se firmar, mais de cem anos atrás, os vinhedos foram nomeados por suas características. Bosconia emulava a Borgonha, Gravonia...bingo! Era o vinhedo Graves para a família que faz os grandes Tondonias. Tem todas as características que tornaram seus vinhos cult, a grande estrutura, o longo envelhecimento em toneis de carvalho de inúmeros usos e o inconfundível estilo denso e ancestral. Aqui não entra modernidade, nem mesmo inox. “Papai achava inox feio”, Júlio César Lopez de Heredia me disse, certa vez, meio irônico.

 

-Alfa Centauri Sauvignon Blanc 2008 O.Fournier (Vinci). Foi o vinho que detonou a conexão com Bordeaux na minha cabeça e motivou esta coluna. José Manuel Ortega queria fazer um Sauvignon com madeira e estilo marcante, sua meta eram os Didier Dagueneau de Pouilly-Fumé, mas acabou produzindo um belo Graves chileno. São poucas garrafas e eu abro as minhas com muita parcimônia.

 

Esporão Private Selection 2012 branco (Qualimpor) Vinho para guardar (mas já dá para beber). Estive lá no calor do Alentejo no mês passado. Calor que não promete um vinho assim, cristalino, delicado, muito sofisticado, com equilíbrio e fineza, um acontecimento na boca. Notável.

 

-Cortes de Cima Branco 2012 (Adega Alentejana) Outro alentejano que dribla as armadilhas do sol impiedoso e consegue frescor. É um falso magro, escondido na sua leveza está uma estrutura poderosa, combina com queijos fortes como Fred Astaire e Ginger Rodgers. Para beber agora ou esperar.

 

-Quinta da Bacalhôa branco (Zona Sul e Portus Cale) Produzido para comemorar os 25 anos dos Bacalhôas tintos, seu ideólogo, o simpaticíssimo enólogo Vasco Garcia, não chegou a Graves por acidente, o plano era mesmo esse, plantaram Semillon, Sauvignon mas com um toque português na presença de Alvarinho. O mais fluido de todos, é refinado e delicado. Vai ganhar na garrafa, outro que abraça os queijos com destemor.

[versão um pouco maior da publicada na coluna impressa no GLOBO dia 5 de julho de 2014]

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Category: Events News

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