Será Portugal 'o mais excitante país de vinho' do momento?

Apr 07, 2014

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Matt Kramer, um dos colaboradores da revista americana "Wine Spectator" anda tão deslumbrado com os vinhos portugueses que decidiu vir viver para Portugal. No primeiro artigo escrito a partir do Porto, explica as razões por que decidiu mudar-se para aquele que considera hoje “o mais excitante país de vinho do mundo”.

“Portugal é hoje o mais excitante lugar de vinho do planeta?”. O americano Matt Kramer, colunista da revista Wine Spectator, fez a pergunta e deu a resposta: “Pode muito bem ser. Por isso me mudei para lá”.

São declarações como estas, publicadas em revistas com a influência da americana Wine Spectator, que ajudam a mudar a percepção do consumidor global sobre a imagem dos vinhos portugueses. Um país não fica na moda de um dia para outro, muito menos um país como Portugal, pequeno, periférico e sem o motor de uma gastronomia reconhecida em todo mundo, como a espanhola ou a italiana.

O artigo de Matt Kramer, publicado na edição online daquela revista a 18 de Março, não é o primeiro a exaltar as virtudes do Portugal vinícola. Outros críticos e escritores de vinhos de renome também já apresentaram Portugal como “The next big idea”. Mas nenhum tinha sido tão categórico.

Matt Kramer é colaborador da Wine Spector desde 1985. Já escreveu para jornais como o Los Angeles Times e tem vários livros publicados sobre vinhos do mundo. Quando se interessa por um país, muda-se para lá. Já viveu na Argentina, Itália e Austrália e das muitas incursões que fez pela Europa, sempre puxado pelos vinhos, nunca se preocupou com Portugal. Os vinhos portugueses, à excepção do vinho do Porto, “pareciam-lhe sem brilho”.

Nos últimos anos, com o decurso das provas, Matt Kramer Kramer percebeu que “algo estava a mexer”. No ano passado, visitou Portugal por duas vezes na companhia da mulher e teve uma epifania: “Eu adorei o que vimos, o que conhecemos, o que comemos e, acima de tudo, o que eu provei”. Começou então a “investigar com mais atenção os vinhos portugueses” e o que a princípio lhe parecia “promissor e extremamente agradável” revelou-se “nada menos do que revolucionário”. E foi então que ele e a mulher decidiram vir viver para o que consideram ser, “sem dúvida, o mais excitante país de vinho do planeta” nos dias de hoje. A sua sentença é “emocional”, não a pode comprovar, mas, justifica, é o que sente como “amante, provador e bebedor de vinho”.

Eleito o país, faltava escolher a cidade. Aqui, a decisão foi fácil. Matt e a mulher optaram pelo Porto (estão a viver na zona da Ribeira), pelo tamanho da cidade, por ser Património da Humanidade e, sobretudo, por ficar próxima do vale do Douro. Da mesma forma que qualquer pessoa tem que ver o Grand Canyon alguma vez antes de morrer, também os amantes do vinho devem sentir a mesma obrigação em relação ao Douro vinhateiro, defende. ”Eu nunca vi nada parecido: é mais vasto do que imaginava, mais ameaçador nos seus intermináveis socalcos e simplesmente mais improvável do que qualquer outra região vinícola que eu já vi. Que outro lugar tem produtores que usam dinamite apenas para criar um buraco onde plantar uma videira?”, escreve.

A propósito da história secular do Douro vinhateiro, Matt Kramer chama a atenção para o declínio do negócio do vinho do Porto nas últimas décadas, sublinhando que o paladar do consumidor moderno se tem vindo a afastar deste vinho fortificado. “Embora ainda haja um número considerável de consumidores que gostam de beber pelo menos um gole de vez em quando, não se engane: o vinho Porto está praticamente prestes a desaparecer”.

O enorme sucesso do Porto Vintage 2011 mostra que (ainda) não há razões para ser tão pessimista, mas o vinho do Porto só terá futuro se continuar a emagrecer nas categorias mais baixas e reforçar a aposta nas categorias especiais. Ou seja, tem que vender menos mas mais caro. Só que isso terá custos económicos e sociais terríveis no Douro, e tanto o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto como a tutela têm dado mostras de não possuírem qualquer estratégia para enfrentar o problema.

Também nos vinhos do Douro há um problema sério por resolver: o excesso de produção (cerca de 70 mil pipas a mais por ano), que tem conduzido a um crescente abaixamento dos preços das uvas e dos vinhos. Mas o ambiente geral ainda se pode considerar de euforia, com cada vez mais produtores a apostar nos vinhos tranquilos e também com cada vez mais vinhos do Douro a merecer reconhecimento internacional. Matt Kramer confessa-se espantado com a rapidez com que tudo está a acontecer nesta região. Há pouco mais de 15 anos, poucos sabiam fazer bons vinhos tranquilos. Agora, os melhores vinhos durienses são “realmente de classe mundial na sua originalidade, sabor, distinção, carácter, profundidade e finesse”, sublinha.

O colunista americano estende o elogio ao resto do país, agora que começa finalmente a tirar partido da enorme diversidade de castas que possui. “Até muito recentemente, o português fez um trabalho muito pobre com este património. Muitas vezes os vinhos surgiam sujos na degustação, provenientes de barris velhos e imundos. (…) Agora Portugal está a jorrar vinhos deslumbrantes”, enfatiza.

Um desses vinhos é o Quinta Foz de Arouce Tinto 2010, um dos melhores vinhos que provou em 2013. Depois de se instalar no Porto, a primeira visita que Matt Kramer fez foi precisamente ao produtor desse vinho das Beiras, para conhecer o lugar e a história que está por trás. A visita vem relatada no segundo post escrito a partir de Portugal, publicado na passada terça-feira e escrito com o mesmo encantamento que viveu quando, no regresso, passou pelo Palace Hotel do Bussaco e provou alguns vinhos da casa, incluindo um branco de 1958 ainda cheio de vida.



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Category: News

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